Friday, February 15, 2008

viver sempre

Viver sempre também cansa!

“Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…”

                                              José Gomes Ferreira

Posted by umpassoatrasumpassoafim at 10:12:24 | Permalink | No Comments »

Sunday, February 3, 2008

queremos

o Jorge Luis Borges tem um poema em que diz que o nome de uma mulher o denuncia, que lhe dói uma mulher em todo o corpo.

Julgo que é este o amor que desejamos todos. Sem contextos, sem rotinas. Absoluto. Que doa alguém a ideia da nossa morte como algum de terrífico. O grande amor.

julgo que a desadequação entre o que sonhamos e o que podemos realizar é tão catastrófico que faz frio até À medula.

Julgo que é assim.

Não sei.  

Posted by umpassoatrasumpassoafim at 02:37:22 | Permalink | Comments (1) »

Friday, February 1, 2008

parte

Parte de mim. Este corpo. A matéria actualizando-se dia a dia para a morte. Órgãos, carne, nervos e este peso.
Parte de mim. A forma, a potência da sede. As asas amputadas. A terra. As raízes necessárias.
Parte de mim, os vínculos ao olhar, ao todo de nervos e fome. Partir da casa que nos habita.
Parte de mim, a viagem. A primeira morada. A única casa.  
 

 

 

 

 

Parte de mim. Este corpo. A matéria actualizando-se dia a dia para a morte. Órgãos, carne, nervos e este peso.
Parte de mim. A forma, a potência, a sede. As asas amputadas. A terra. As raízes necessárias.
Metade de mim, os vínculos ao olhar, ao todo de nervos e fome. A casa que nos habita.
Metade de mim, a viagem. A primeira morada. A única casa.        

Posted by umpassoatrasumpassoafim at 10:53:19 | Permalink | Comments (2)

alguns gostam de poesia

” ALguns -
quer dizer nem todos,
nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se de lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.” W.Szymborska 

Posted by umpassoatrasumpassoafim at 08:55:19 | Permalink | No Comments »