Monday, January 21, 2008

metade

“Metade

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade…
também
Ferreira Gullar

Posted by umpassoatrasumpassoafim at 19:43:39
Comments

One Response to “metade”

  1. Carlos says:

    Uma parte de mim é todo mundo
    Outra parte é ninguem, fundo sem fundo
    Uma parte de mim é multidão
    Outra parte estranheza e solidão
    Uma parte de mim pesa, pondera
    Outra parte delira
    Uma parte de mim
    Almoça e janta
    Outra parte se espanta
    Uma parte de mim é permanente
    Outra parte se sabe de repente
    Uma parte de mim é só vertigem
    Outra parte linguagem
    Traduzir uma parte na outra parte
    Que é uma questão de vida e morte
    Será arte?
    Será arte?
    Será arte?

    poema TRADUZIR-SE, de Ferreira Goulart
    * no disco Traduzir-se, Raimundo Fagner canta este texto de uma maneira belíssima. Já o ouviste? A Calcanhotto também o canta nos seus shows ao vivo.

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