Monday, January 28, 2008

um olhar

Somos aquilo que realizamos.
somos também tudo aquilo que ficou por realizar.
somos cada olhar de promessa.
num passado e num futuro qualquer.
somos a diferença entre aquilo que idealizamos e o que a realidade nos vai deixando fazer.
somos a transparência da palavra e o segredo do desejo.
somos o desejar.

 

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Thursday, January 24, 2008

Prefiro

” Prefiro cinema
prefiro os gatos
prefiro os carvalhos nas margens don Warta
prefiro Dickens a Dostoievski
prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade
prefiro ter uma agulha preparada com a linha
prefiro a cor verde
prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo
prefiro as excepções
prefiro sair mais cedo
prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa
prefiro as velhas ilustrações listradas
prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever
no amor prefiro os aniversarios não redondos
para serem comemorados todos cada dia
prefiro os moralistas
que não prometem nada
prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais
prefiro a Terra à paisana
prefiro os países conquistados aos países conquistadores
prefiro ter objecções
prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem
prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais
prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas
prefiro os cães com o rabo não cortado
prefiro os olhos claros porque os tenho escuros
prefiro as gavetas
prefiro muitas coisas que aqui não disse
a outras tantas não mencionadas aqui
prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto a um algarismo
prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas
prefiro isolar
prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando
prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.” WislawA Szymborska   
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Wednesday, January 23, 2008

“I think myself into love,
 and i dream myself out of it” Hazlitt
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Monday, January 21, 2008

metade

“Metade

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade…
também
Ferreira Gullar

Posted by umpassoatrasumpassoafim at 19:43:39 | Permalink | Comments (1) »

” Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudade desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois”
                          José Tolentino Mendonça
Posted by umpassoatrasumpassoafim at 16:21:01 | Permalink | No Comments »

Sunday, January 20, 2008

as mãos

Eduardo White é um escritor/poeta moçambicano que tem um livro único chamado ” O manual das mãos”:

” Vamos à varanda. Eu e as mãos. Uma brisa far-nos-á bem por esta altura. Olho o céu límpido. Estranho a lua, a presença dela lá. Nostálgica prata a sua,minério verbal da saudade.”

Ivan Lins tem um disco com o mesmo nome , ” As mãos”, ouvi-o quando ainda pequena e por mais que o desejasse nunca o consegui ter. 

As mãos. Que são nossas. Mas que nos possuem. Que nos sustentam. Que nos enraízam. Que se orientam sem nos pedirem. que são.     

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Friday, January 18, 2008

Cesariny

“O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado à morte!” Cesariny

eu vou ser sempre pequena. o que vale é que me empoleiro nos ombros de outros maiores do que eu e me sinto grande. é o caso de Cesariny. há quem faça falta. porque incomoda.porque não se cala. porque é autêntico.estou a ler “autografia”, a entrevista-documentário feita/realizada por Miguel Gonçalves Mendes, e que prometeu ser concluída antes da morte de CesarinY(e cumpriu!: “-Quando eu morrer fazes aquele filme lindo?;- vou fazer antes do Mário morrer”)

diz o Mário o que, penso, todos dizemos para o mais interior de nós:
” Houve um homem, agora não me lembro do nome dele, um francês casado com uma filha do MArx, que escreveu um livro(Direito à preguiça), em que dizia aos trabalhadores, quando eles pediam trabalho: vocês não peçam trabalho, vocês peçam lazer e descanso, que há muita gente que não faz nenhum. Que se isto tivesse uma organização capaz, ninguém no mundo precisava de trabalhar mais de três horas por dia.”

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Thursday, January 17, 2008

Por vezes andamos esquecidos de nós. ou mudamos e o nós que pensamos esquecido é já outro. apetece um tempo denso.revoltamo-nos contra o que não chega, ou não sabemos aceitar que o que chega chega. que o que temos é suficiente para a sede. é que há quem não beba de fontes e pense viver, e isso intriga-me, faz-me pensar que há uma perda progressiva das ilusões, como se eu fosse uma qualquer coisa que se vai diluíndo pelos dias. tinta sobre água.
Posted by umpassoatrasumpassoafim at 19:26:57 | Permalink | Comments (2)

os braços

” Os braços

Como viver? Não há outra pergunta séria.
Um velho com o braço direito partido
folheia o jornal com a mão esquerda.
Penso: assim seria mais fácil.
    O corpo a decidir por nós
Olho para mim: os dois braços intactos.
    Que fazer?”     
                 Gonçalo Tavares  

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