Friday, August 29, 2008

a partir de que instante

ouvi o Caetano a cantar. Pergunto a mim mesma em que instante começou a minha não felicidade. Não. Não se trata de infelicidade. Uma incapacidade. Como se tivesse saído dos carris e não houvesse nada a fazer a não ser deixar o corpo rebolar pela encosta. E, ao mesmo tempo uma imensa incompreensão do sentido que tem o caminho que fez o corpo ao roçar sobre as pedras, a terra e o solo. 
Em que instante deve parar a minha luta por uma coincidência entre o dentro e o fora?     
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Friday, February 15, 2008

viver sempre

Viver sempre também cansa!

“Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…”

                                              José Gomes Ferreira

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Sunday, February 3, 2008

queremos

o Jorge Luis Borges tem um poema em que diz que o nome de uma mulher o denuncia, que lhe dói uma mulher em todo o corpo.

Julgo que é este o amor que desejamos todos. Sem contextos, sem rotinas. Absoluto. Que doa alguém a ideia da nossa morte como algum de terrífico. O grande amor.

julgo que a desadequação entre o que sonhamos e o que podemos realizar é tão catastrófico que faz frio até À medula.

Julgo que é assim.

Não sei.  

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Friday, February 1, 2008

parte

Parte de mim. Este corpo. A matéria actualizando-se dia a dia para a morte. Órgãos, carne, nervos e este peso.
Parte de mim. A forma, a potência da sede. As asas amputadas. A terra. As raízes necessárias.
Parte de mim, os vínculos ao olhar, ao todo de nervos e fome. Partir da casa que nos habita.
Parte de mim, a viagem. A primeira morada. A única casa.  
 

 

 

 

 

Parte de mim. Este corpo. A matéria actualizando-se dia a dia para a morte. Órgãos, carne, nervos e este peso.
Parte de mim. A forma, a potência, a sede. As asas amputadas. A terra. As raízes necessárias.
Metade de mim, os vínculos ao olhar, ao todo de nervos e fome. A casa que nos habita.
Metade de mim, a viagem. A primeira morada. A única casa.        

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alguns gostam de poesia

” ALguns -
quer dizer nem todos,
nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se de lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.” W.Szymborska 

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Monday, January 28, 2008

um olhar

Somos aquilo que realizamos.
somos também tudo aquilo que ficou por realizar.
somos cada olhar de promessa.
num passado e num futuro qualquer.
somos a diferença entre aquilo que idealizamos e o que a realidade nos vai deixando fazer.
somos a transparência da palavra e o segredo do desejo.
somos o desejar.

 

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Thursday, January 24, 2008

Prefiro

” Prefiro cinema
prefiro os gatos
prefiro os carvalhos nas margens don Warta
prefiro Dickens a Dostoievski
prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade
prefiro ter uma agulha preparada com a linha
prefiro a cor verde
prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo
prefiro as excepções
prefiro sair mais cedo
prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa
prefiro as velhas ilustrações listradas
prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever
no amor prefiro os aniversarios não redondos
para serem comemorados todos cada dia
prefiro os moralistas
que não prometem nada
prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais
prefiro a Terra à paisana
prefiro os países conquistados aos países conquistadores
prefiro ter objecções
prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem
prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais
prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas
prefiro os cães com o rabo não cortado
prefiro os olhos claros porque os tenho escuros
prefiro as gavetas
prefiro muitas coisas que aqui não disse
a outras tantas não mencionadas aqui
prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto a um algarismo
prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas
prefiro isolar
prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando
prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.” WislawA Szymborska   
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Wednesday, January 23, 2008

“I think myself into love,
 and i dream myself out of it” Hazlitt
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Monday, January 21, 2008

metade

“Metade

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade…
também
Ferreira Gullar

Posted by umpassoatrasumpassoafim at 19:43:39 | Permalink | Comments (1) »

” Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudade desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois”
                          José Tolentino Mendonça
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